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Relógio mede o sono profundo? O que o aparelho vê e não vê

Os aparelhos de consumo não estão validados contra a polissonografia, o método de referência para avaliar o sono.

  • 6 min de leitura

Os aparelhos de consumo não estão validados contra a polissonografia, o método de referência para avaliar o sono. Um estudo multicêntrico recente comparou 11 aparelhos de consumo com a polissonografia em laboratório e encontrou uma variação substancial entre modelos na classificação das fases do sono. Há aparelhos que acertam razoavelmente na classificação do sono profundo e outros que ficam longe. Se o número que vê de manhã não corresponde ao que sente, o problema pode estar no aparelho e não em você.

O que o relógio está realmente a medir

O padrão de referência para identificar fases do sono é a polissonografia, o método usado em laboratório contra o qual as tecnologias de consumo não estão validadas. A Academia Americana de Medicina do Sono descreve estes aparelhos de consumo como tecnologias amplamente usadas que alegam medir e até melhorar o sono, mas que não têm validação contra a polissonografia.

Isto não significa que o aparelho seja inútil. Significa que o que lê é uma estimativa, e que a qualidade dessa estimativa varia consoante o aparelho, como sugere um estudo multicêntrico que comparou vários rastreadores de sono com a polissonografia em laboratório.

Quão perto do laboratório fica, na prática?

Um estudo multicêntrico comparou 11 aparelhos de consumo — de pulso, de cabeceira e baseados no telemóvel — com a polissonografia em laboratório, em 75 participantes. O resultado foi uma variação substancial na forma como classificavam as fases do sono, época a época. As pontuações de concordância foram de 0,26 a 0,69, numa escala em que valores mais altos indicam melhor concordância. Ou seja: alguns aparelhos aproximaram-se bastante do laboratório e outros ficaram apenas parcialmente consistentes com ele.

Para o sono profundo em particular, alguns aparelhos de pulso saíram-se melhor do que outros. Os autores concluíram que alguns aparelhos concordaram substancialmente com a polissonografia, enquanto outros foram só parcialmente consistentes. E os resultados variaram com fatores como o índice de massa corporal, a eficiência do sono e o índice de apneia-hipopneia. Isto é importante para você: a mesma pulseira pode ser mais fiável numa pessoa do que noutra, e o seu corpo faz parte da equação.

Há também diferenças no tipo de erro. Os aparelhos de pulso mostraram um viés proporcional elevado na estimativa da eficiência do sono, enquanto os aparelhos de cabeceira mostraram um viés proporcional elevado na latência do sono — o tempo que se leva a adormecer. Nenhum destes dados permite dizer que o seu relógio é exato. Permitem dizer que a exatidão não é uma propriedade garantida da categoria.

Posso confiar no número de sono profundo que vejo de manhã?

Pode usá-lo como indicador de tendência, com cautela, mas não como medida clínica. A posição da Academia Americana de Medicina do Sono é clara: dada a falta de validação e de autorização regulamentar, estas tecnologias de consumo não podem ser usadas para diagnosticar ou tratar perturbações do sono neste momento. Podem, isso sim, ajudar a enriquecer a conversa entre o paciente e o clínico, no contexto de uma avaliação adequada.

Na prática, isto quer dizer o seguinte. Se o relógio lhe mostra uma noite com muito sono profundo e você acordou bem, é uma coincidência agradável, não uma prova. Se lhe mostra uma noite má e você acordou mal, também não é uma prova. O que pode fazer é olhar para o padrão ao longo de semanas e perguntar-se se ele acompanha a sua sensação real. Se acompanhar, é um sinal útil. Se não acompanhar, o número não deve mandar na sua vida.

Então porque é que o relógio às vezes parece acertar?

Um algoritmo treinado para reconhecer estes padrões pode aproximar-se, mas o grau de concordância varia consoante o aparelho e a pessoa. O problema é que "muitas vezes" não é "sempre", e o erro não é aleatório: tende a concentrar-se em pessoas e situações específicas, como mostrou a variação com o índice de massa corporal e o índice de apneia-hipopneia.

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Se começar a sentir que o relógio está a julgar as suas noites, talvez seja altura de o usar menos.

O que fazer na prática com o que o relógio lhe diz

Use o aparelho como um diário aproximado, não como um diagnóstico. Um registo de várias semanas, com a hora de deitar, a hora de acordar e como se sentiu, diz-lhe mais sobre os seus hábitos do que qualquer pontuação isolada de sono profundo. Se quiser comparar, compare consigo mesmo ao longo do tempo, nunca com os números de outra pessoa.

Se o objetivo é melhorar o sono, o que funciona não está no relógio. Estas são as bases, e nenhum aparelho as substitui. Se o relógio o ajudar a manter a rotina, ótimo. Se se tornar uma fonte de stress, deixe-o na mesa de cabeceira.

E se o problema for mesmo o sono e não o aparelho?

Há sinais que não devem ser geridos com um relógio. O NHS inclui o ressonar ou a respiração interrompida durante o sono — a apneia do sono — entre as coisas que impedem uma boa noite. E aconselha a consultar um médico se mudar os hábitos de sono não ajudou, se tem dificuldade em dormir há meses ou se o sono pobre afeta a vida diária. Se se reconhece aqui, o próximo passo não é comprar outro aparelho. É falar com um profissional.

O mesmo se aplica se estiver grávida, a amamentar, se tomar medicamentos ou se tiver uma doença diagnosticada. Nesses casos, a conversa com o médico ou farmacêutico vem antes de qualquer suplemento ou aparelho.

O suplemento entra nesta conversa?

Pouco, e nunca como substituto dos hábitos. O que se sabe sobre os aparelhos de consumo que medem o sono é que variam muito entre si e não estão validados para o diagnóstico ou tratamento de perturbações do sono. Se já tem uma rotina de sono razoável e quer experimentar algo à noite, pode falar com o farmacêutico sobre as Gomas para Dormir Bem. A dose é de 2 gomas por dia, pouco antes de deitar, e fornecem 1 mg de melatonina por dose. Não exceda a dose recomendada. Não é recomendado a crianças, grávidas ou mulheres a amamentar. Pode causar sonolência; evite conduzir ou utilizar máquinas após a toma. Contém polióis; o consumo excessivo pode ter efeito laxativo. Isto não é um tratamento para insónia nem para apneia, e não substitui a avaliação médica.

O que ainda não sabemos

Não sabemos se um determinado aparelho de pulso é fiável para o seu corpo em particular. Não sabemos se os algoritmos atuais serão atualizados de forma a aproximarem-se mais da polissonografia, nem se essa melhoria se traduzirá em decisões melhores para quem os usa. E não sabemos até que ponto ver o número de sono profundo todas as manhãs ajuda ou atrapalha quem já dorme mal. A evidência existente é suficiente para dizer que estes aparelhos não substituem um exame clínico, e insuficiente para dizer que são inúteis. Se tiver dúvidas sobre o seu sono, leve o registo do relógio à consulta e discuta-o com o médico. É a utilização para a qual estes dados foram considerados adequados.

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